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03/05/2009

Dickie Cross, 22 de dezembro de 1943.

Peter Cole, Waimea.


Como havia dito na publicação anterior, a Baía de Waimea ficou sem ser surfada por mais de 10 anos após o trágico episódio de Woody Brown e um jovem garoto de apenas de 17 anos, chamado de Dickie Cross.

No começo da década de 40 o North Shore era apenas uma linha de praias virgens recém descoberta, onde somente poucas das inúmeras praias já haviam sido desbravadas. Uma dessas praias era Sunset Beach, cuja praia Woody Brown só havia surfado apenas meia dúzia de vezes. No dia de 22 de dezembro de 1943, acompanhado por um jovem garoto chamado Dickie Cross, rumaram para a costa norte com intuito de surfar em Sunset. Uma das armadilhas que as ilhas hawaiianas podem oferecer aos surfistas mesmo os experientes, são os swells relâmpagos que podem costear a costa em um suspiro. Como Woody só havia tido lá apenas algumas vezes, não tinha o conhecimento que o local estava pronto para receber um dos swells que as ilhas não haviam sofrido há anos.

Ao entrar no canal de Sunset, os dois se depararam com um swell crescente de ondas subindo para os 20 pés. Com a inexitosa tentativa de sair do mar pelo canal devido a forte corrente que estavam segurando-os no local e com as grandes ondas que quebravam no horizonte varrendo toda a costa norte, os dois tiveram a idéia de remar para a Baía de Waimea. Woody completa, “Você tem que tomar cuidado com esses canais. Quando a onda fica grande, a correnteza te leva para auto mar. Com isso, concluímos que a única coisa a fazer era esperar a série passar – o intervalo entre as séries era de cada 10 minutos – e remar os 6 km para a Baía de Waimea, pois quando a gente estava vendo as praias anteriormente, a praia estava com um bom canal e apenas quebrando 20 pés limpos no canto direito da praia. Com isso nos sentimos mais calmos com a situação: grande praia, ótimo canal, tranqüilo quebra coco”.

Os dois após escaparem das grandes séries, chegando a Waimea, viram que o cenário desejado desta não estava conforme previsto, pois o swell estava muito maior e constante. George Downing jurava que neste dia as ondas estavam passando dos 40 pés fáceis.

Woody concorda, “Yeah, eu concordo, fácil. Na nossa remada a Waimea, após chegar, começamos a remar para a costa. Esse rapaz que estava comigo era apenas um jovem corajoso. Era daqueles: toda coragem e nada de cabeça. Apenas, ‘Humm’.”

Com a perícia do local feita, Woody percebe que eles estavam na linha da arrebentação e alerta ao jovem que deviam sair do local para o lado central da praia. Ignorando Woody, Dickie continua a remar no lado direito da praia sem nenhuma idéia da situação onde se encontrava. Com Dickie remando no lado direito, Woody o acompanha remando paralelamente a ele ao lado central da praia.

O que os dois temiam aconteceu, em outras palavras, uma série no horizonte vinha em sua direção. Woody, “Rapaz, era como uma escada até onde você conseguia ver, ficando cada vez mais íngreme. Você podia ter o maior trabalho remando, mas você ainda estaria subindo na face dela.”

“Eu consegui atravessá-la, sentei na prancha e procurei o meu companheiro, porque ele estava mais no raso do que eu. Eu apenas não conseguia ver ele! E então, eu o vi subindo no topo da última onda, e estava tão inclinada. Ele e a prancha simplesmente foram jogados para traz da onda. Depois disso ele remou em minha direção e eu perguntei, ‘Dickie, você acha que conseguiria ter sobrevivido dessa onda? ’.”

Ele falou, “Claro que não!”.

Concordaram que as ondas daquelas séries estavam nos incríveis 60 pés. Voltando a remar para a costa, Dickie volta a se afastar de seu companheiro, mesmo após terem concordado de atravessar no meio da baía com o intuito de estudarem a série para verem como iriam se comportar em suas decisões.

Woody, “Ele apenas não prestava atenção alguma. Parecia que era hora dele, como alguma coisa o chamava, sabe? Considere seu comportamento. Ele chegava cada vez mais perto do pico das ondas intermediárias, cada vez mais sobre as ondas. Apesar de ter sido quase pego pelas ondas e ter concordado que não sobreviveria com a queda destas, ainda continuava me ignorando. Parecia que era a sua hora... eu não sei.”

As ondas intermediárias estavam quebrando 20 pés constantemente, e as séries vinham aos incríveis 60 pés em intervalos de tempo de 10 minutos cada.

Finalmente Dickie se vira e rema para uma onda onde consegue dropá-la, mas perde sua prancha logo em seguida. Os dois se viram na situação de “dois homens, uma prancha”. Começam a remar em direção um do outro, mas infelizmente Dickie aponta para o horizonte aonde vinham aquelas montanhas d’águas de 60 pés de altura vindo em sua direção. Woody foi obrigado a ceder e rema em direção delas para não ter o trabalho de perder a sua e única prancha do local.

Woody exclama, “Minha única chance era salvar a única prancha que nós tínhamos. Eu remei em direção das ondas, passei pela primeira, e começou a vir cada vez mais, ficando maiores e íngremes, cada vez mais crespas em seus topos. Bom, eu vi que não iria conseguir passar de todas. Então veio uma em minha direção, eu arremessei a prancha e mergulhei de cabeça para o fundo. Essa é a única chance em ondas grandes: mergulhar para o fundo”.

“Eu podia mergulhar 30 pés naquele tempo e me safar, e rapaz, eu sentia ser sugado para cima e jogado para baixo de novo. Eu conseguia ver a espuma borbulhando atrás e embaixo de mim. Eu a 30 pés submerso a espuma me alcançava! Você não tinha condição de sobreviver assim”.

Logo em seguida ao emergir, não localizando com êxito o seu companheiro Woody retirando seu calção para aliviar o peso, toma a última decisão de remar ao canal central onde as ondas da série poderiam estar menores e menos fortes. Já no canal, viu que sua sorte estava melhorando quando viu uma série monstruosa quebrando 500 metros de distância de sua localização.

Pensou, “Eu consegui passar desta vivo, talvez eu tenha alguma chance, pois as ondas me jogavam cada vez mais perto da praia, certo? Cada vez eu mergulhava um pouco menos e eu vi que eu estava me aproximando da areia. Finalmente chegando a ela, cansado e sem nenhuma força, rastejei-me com as mãos e joelhos onde em minha direção veio um grupo de homens do exército me socorrer. A primeira coisa que eu falei foi, ‘Cadê o meu companheiro?’ Eles falaram, ‘Oh, após que ele tentou pegar a primeira onda grande, ele foi pego por ela, conseqüentemente não o avistamos mais’. Eu percebi que esse garoto tinha tanta coragem, que ele tentou pegar de peito (bodysurf) a onda.”



Bibliografia: Legendary Surfers.

28/04/2009

Makaha Waves

Makaha é um dos picos mais ilimitados do qual eu tenho conhecimento, tanto no tamanho das ondas quanto em sua freqüência. Localizada ao lado oeste da ilha de Oahu, a praia é banhada por vales de lavas derretidas ao longo da costa. No verão as ondas não passam dos 4 pés, diferenciando no inverno onde elas podem passar dos 25 pés em um piscar de olhos.

Proclamada o segundo epicentro de ondas grandes do mundo – logo após de Waikiki – e também considerada pela revista Surfer Magazine uma das “25 melhores ondas do planeta” em 1989.



Um trecho do filme Slippery When Wet de Bruce Brown, em 1958.



Wally Froiseth e o resto da “gangue” de Hotcurlers, no inverno de 1937, foram fazer pesca submarina na praia de Makaha onde de repente um swell relâmpago bateu na costa oeste da ilha, fazendo quebrar ondas de 15 pés. Além de Castles e Brown’s, os hotcurlers começaram a surfar no novo pico onde podia pegar a maior e a mais longa parede que a ilha de Oahu poderia oferecer naquele tempo. Com um bom canal cujo surfista poderia remar tanto para entrar no mar quanto para sair.


Surfista desconhecido.



Wally explica em seus primeiros dias de surf em Makaha, "No começo, eu e o pessoal – os Hotcurlers – sempre convidavamos as pessoas a se juntar no mar, mas podiam acontecer duas coisas, a primeira era o mar estar flat fazendo com que as pessoas não acreditassem que rolava ondas boas naquele local, e a segunda coisa que podia acontecer, era as ondas estarem grandes demais fazendo com que as pessoas se espantassem o bastante para ficar sentados na areia apenas olhando”.




Woody Brown exclama, “O quebra coco era horrível, as ondas quebravam de 6 a 8 pés na areia, então a gente tinha que jogar as nossas pranchas no mar e mergulhar rapidamente para não sermos pegos. As ondas são previsíveis naquela praia, elas se diferenciam de acordo com o ângulo de direção de cada swell. Tem dias excepcionais que a pessoa conseguia completar todas as ondas, e tinha outros dias que era horrível, não importa onde a pessoa sentava, a onda arranjava um jeito de te pegar”.


Buzzy Trent à esquerda.
Notem que as rabetas das pranchas ainda estão se adaptando com a evolução dos outlines.
Makaha, 1953.


Na época da redescoberta de Makaha, Whitey Harrison e Gene Smith começaram a surfar no North Shore, primeiramente em Haleiwa e logo mais, na praia de Sunset no final da década de 30. Com o episódio de Dickie Cross em 22 de dezembro de 1943 – que logo mais estarei publicando a respeito – os surfistas pararam de surfar no North Shore por aproximadamente 10 anos. Assim o centro do surf de ondas grandes se voltou totalmente à praia de Makaha.




Ao longo dos anos, surfistas do continente como Greg Noll, Fred Van Dyke e Ricky Grigg começaram a surfar nas ilhas após a grande publicação de um jornal famoso que rodou o país inteiro em 1953, cuja foto da capa deste continha Buzzy Trent, George Downing e Woody Brown descendo uma onda de 20 pés face em Makaha. Com essa publicação, a popularização de ondas grandes só estava começando, e a peregrinação para o Hawaii era o lugar certo.

Jornalista cujo nome desconheço no qual bateu a famosa foto.

Graças à Makaha, grandes ídolos foram encorajados a surfar as destemidas ondas gigantes da ilha de Oahu, ídolos como: Fred Van Dyke, Bob Simmons, George Downing, Woody Brown, Walter Hoffman, Buzzy Trent e principalmente Greg Noll por ter pego a sua última e proclamada a maior onda já pega de todos os tempos para a época, em dezembro de 1969 no grande swell, onde as ondas passavam dos incríveis 35 pés, que logo mais estarei também publicando a respeito.


Bob Simmons & Walter Hoffman.
Makaha, 1953.


Dou a vocês uma lista de filmes no qual a praia foi protagonista de sucesso: Trek To Makaha (1956), Slippery When Wet (1958), Barefoot Adventure (1960), Cavalcade of Surf (1962), The Endless Summer (1964), The Golden Breed (1968), Five Summer Stories (1972), Ocean Fever (1983). Surfers: The Movie (1990).

31/03/2009

Hot Curl, o princípio.

Bem vindos a mais um novo capítulo de Back to the Singlefins.

Particularmente, a cena mais dramática e a mais misteriosa no mundo do surf, foi no final da década de 30 até a metade da década de 50, onde um punhado de homens vivenciaram uma cena que poucos conheciam e que foi de suma importância para o desenvolvimento do esporte em ondas grandes. Homens bravos com coragem e companheirismo na alma fizeram a história acontecer, a história contada e gozada por poucos, são os chamados Hotcurlers.

Na década de 40, as típicas pranchas hawaiianas eram tábuas planas de madeiras de redwoods e balsa, medindo entre 10 a 12 pés, rabeta larga e quadrada, e sem nenhuma quilha ou estabilizadores para segurar a rabeta na onda, principalmente em ondas grandes. O termo usado para esse acontecimento era chamado de “slide ass”, explicando que quando a prancha desgarrava da onda, o surfista era jogado de sua prancha caindo de bunda na água.


California. 1948. Palos Verdes Cove.



Wally Froiseth, John Kelly, Rabbit Kekai, Woody Brown, Fran Heath, George Downing, Henry Preece já sabiam como shapear as suas, mas mesmo assim não sabiam como estabilizá-las em ondas grandes. Particularmente em um dia, mais precisamente no ano de 1937, John Kelly e Wally Froiseth voltaram de um surf grande e perfeito em Brown’s. Intrigados pelo fato de não terem conseguido surfar direito devido suas pranchas ficarem sempre deslizando suas rabetas, Kelly se irritou e pegou seu machado acertando a rabeta de sua prancha, ocasionando um formato “V” no fundo dela. Ficou surpreso com o formato indesejado, mas interessante. Voltou ao mar e testou-a, incrivelmente ele tinha o total controle sobre ela, não ocasionando o singular “slide ass”. Depois deste descobrimento, Kelly e seus companheiros começaram a projetar pranchões maciços de madeiras de redwood aproximadamente de 12 pés chamados de Hotcurl.



Rabbit Kekai fazendo um pouco de estilo sobre uma Hot Curl.

Rabbit fez história sob essas pranchas após pegar um tubo botando um pé no bico da prancha, algo de extrema habilidade que na época era uma proesa quase impossível e inimaginável de fazer.


Mas por que o nome “Hot Curl”? Simples. Era a única prancha que habilitava o surfista a ficar na parte mais crítica da onda, onde tinha mais força e tensão. Era mais uma porta aberta para o mundo de ondas grandes.
Apesar de Tom Blake ter inventado a quilha alguns anos antes, ninguém ainda as usava, demorando quase uma década para entrar na cena. Ele testou a sua primeira quilha em uma de suas paddle boards de 14 pés, mas Wally e os outros hotcurlers não tinham o maior respeito por essas pranchas ocas e seus estabilizadores, porque não podiam ser surfadas em ondas maiores de 8 pés, pois eram muito leves e atrapalhadas.



Esqueleto de uma Tom Blake's Paddle Board.


Wally exclama em uma de suas entrevistas, “As pranchas ocas ficavam incontroláveis. Nós não tínhamos o maior respeito por elas, e também nós não tínhamos nenhum interesse com as quilhas. Por que a gente queria uma quilha nas nossas pranchas? Não era preciso. O que era verdade, pois as nossas hotcurls já faziam todo o trabalho”.



Wally Froiseth.


Woody completa, “As hotcurls já estavam lá quando cheguei às ilhas. Então eu aprendi a shapear a minha igual a deles, porque a minha anterior deslizava a rabeta. Você não podia surfar ondas grandes sem o V bottom na prancha, e eu gostava das ondas grandes. Então fui obrigado a botar o V na minha. Wally me ajudou e eu fui aperfeiçoando cada vez mais, porque o meu interesse era velocidade ao contrario dele que apenas gostava de ficar no lugar crítico da onda.”



Wally Froiseth, Buzzy Trent & Woody Brown.

1953, os últimos vestígios das pranchas Hotcurls.

“Tudo bem, mas quando você tem uma parede extensa a ser ultrapassada, o objetivo é pegar velocidade. Minha ‘prancha’ tinha 12 pés e pesava 36 kg, mas rapaz, quando aquela coisa dropava na onda, você tinha que se segurar para não cair dela de tão rápida. Você dropava tão rápido, o que era bom quando você tinha que atravessar meia milha de onda. A prancha foi feita com uma câmara de redwood de 3 polegadas, rabeta de fundo “V”, e bordas finas de vários tipos de madeiras. O bico e a rabeta era feitos de carvalho.”


John Kelly. Atualmente na praia de Haleiwa.

Ciclos Hawaiianos

Olá. Bem vindos à outra publicação do Back to Singlefins.

Retirado e traduzido do blog Legendary Surfers, uma das conversas que mais admiro com Woody Brown sobre seu tempo de big rider na costa sul e oeste de Oahu. Um diálogo que transmite a intensidade de como era ser um dos poucos big riders da década de 30, logo após o renascimento do surf.

A nova era do surf em ondas grandes começou nos anos 30, na costa Sul, Oeste e Norte da ilha de Oahu. Mal faziam três décadas do renascimento do esporte quando Woody chegou às ilhas. Nesta época, o epicentro do surf ainda consistia a praia de Waikiki.


Nativo. Diamond Head ao fundo. Anos 20.

- Mencionado que ambos, Duke Kahanamoku e Tom Blake, haviam dito e escrito que a praia de Waikiki em certas ocasiões chegava a dias excepcionais que era muito raro. Era verdade?

Tom Blake e Duke Kahanamoku.


- Oh, - Woody exclama - claro que sim! Meu Deus, as ondas quebravam em uma só arrebentação antes de alguém conseguir chegar lá. Ocorreu que teve um ano que estava quebrando tão grande, que a costa inteira fechou pelos espumeiros e o horizonte não tinha meio de visualizá-lo. As ondas do Porto de Honolulu estavam quebrando nos incríveis 30 pés. Então, os pioneiros de ondas grandes, que já eram poucos esses loucos, subiram para Black Point onde tem um penhasco de pedra que desce até o mar. As águas do pé deste penhasco eram fundas fazendo com que as ondas não quebrassem ao encontro das pedras. Os pioneiros jogavam as pranchas lá de cima e mergulhavam, e então remaram até chegarem à frente da praia de Waikiki, provavelmente uma milha de distancia da areia. A arrebentação como havia dito era só uma, limitando apenas em uma tentativa. Mas eles não se importavam muito, apenas apertavam as mãos dizendo, “OK, em caso de a gente não se ver mais...”. Faziam isso e dropavam as ondas ou levavam uma tremenda vaca fazendo com que eles nadassem o caminho todo até a praia. Eu conto a vocês, falo sobre coragem.


Makaha. 1953.


- Você estava mencionando Wally Froiseth, John Kelly e Fran Heath?

- Eles eram um dos principais – Woody relembra –, vamos ver, também havia Rus Takaki – um garoto japonês-, e um garoto coreano que esqueci o nome, mas eram os principais que eram capazes de remar essa distancia toda quando o mar estava daquele jeito. Ninguém mais tinha o pensamento de ir se juntar. Eles acharam todos os lugares que quebravam ondas grandes em torno de Oahu, antes de eu ser um dos primeiros a surfar no North Shore por volta de 1940. Parecia que o surf nos anos 30 era maior. O ciclo mundial muda. O surf começa a ficar grande em diferentes partes do mundo por causa deles. Nós não éramos civilizados o suficiente para deixar gravados esses ciclos, talvez de até 100 anos. A gente não sabe.


Os hot curlers
Fran Heath, John Kelly & Wally Froiseth.


- Você não acha que as pessoas se acostumaram com o tamanho?

- Não, oh não, não. As ondas eram maiores. Como havia dito os barcos não conseguiam chegar perto do Porto de Honolulu. Eu nunca mais vi disso nos últimos 50 anos que estou nas Ilhas. Esses dias excepcionais eram em torno de 1930. Quando íamos ao mar de Castles, as ondas eram 25 pés, onde não quebravam ondas menores de 10 pés. Atualmente, quando o meu amigo Wally Froiseth relembra, “Então Woody, não tem mais daqueles dias, hein!”. Não ocorre mais isso por alguma razão maior. Como eu digo, em minha opinião são os ciclos. Tem todo o tipo de ciclos que nós estamos começando a entender...


Wally Froiseth. Makaha, 1953.

09/03/2009

Woody Brown, um ídolo, um anjo

Eu, como poucos, admiro e estudo a vida dos watermen da velha guarda. Através de leituras e biografias traduzidas, vídeos e reportagens raras de suma importância, com o tempo que você vai se aprofundando no assunto, mais exótico e dramático se torna a vida desses homens que fizeram historia apenas saindo da alienação da sociedade Norte Americana. Woody Brown falecido ano passado, aos 96 anos de idade, foi um dos últimos homens que descobri e foi um dos que mais me chamou a atenção, no sentido da humildade e experiência que teve em vários capítulos de sua vida, que foi, resumidamente não satisfatório à mim, assim:



Woodbridge Parker Brown nasceu em 1912 em Nova York, um filho de uma respeitosa família. Em seus anos de adolescência apaixonou-se por aviação largando a escola aos 16 anos de idade. Começou à freqüentar o Aeroporto de Curts em Long Island, Nova York, dormindo em hangares fazendo de tudo para ficar perto de sua paixão. Logo cedo, abandonou os aviões mecânicos quando descobriu os planadores. Durante seus dias de planagem, Woody se casou com uma inglesa independente e esperta chamada Elizabeth Sellon. Dirigindo para La Jolla - California, rebocando seu planador, o casal deixou Nova York em 1935.

Lá, ele conseguiu um rendimento o bastante para sustentar sua dedicação à planagem, com isso, ele foi o primeiro à lançar um planador do penhasco em La Jolla, que mais tarde tornou “Torrey Pines Glider Port”. Além de sua paixão de voar, começou a surfar em La Jolla, onde se tornou o primeiro surfista da praia, com sua prancha oca de madeira de 10 pés (3 metros).

Em 1939, com sua mulher grávida, foi convidado à participar de um grande encontro dos Planadores no Texas. Pegando seu planador Thunder Bird em La Jolla, Woody planou por 263 milhas, passando 3 estados até chegar em Texas. Batendo o recorde nacional e mundial de altitude, de distância, de tempo de vôo nas alturas e objetivo de vôo em um planador. Chegou a receber um telegrama de parabéns do presidente da repúbilca dos EUA, Herbert Hoover.




Ao voltar para casa, sua esposa falece no parto de seu filho, “Eu desabei, não conseguia surfar, não conseguia voar, eu estava morrendo” diz. Largando tudo, Woody foi para Oahu, Hawaii, e por causa da Segunda Guerra Mundial, foi obrigado a ficar na ilha não conseguindo completar seu destino, que era Tahiti. Na ilha, descobriu as ondas grandes e perfeitas que lá quebravam, conhecendo os locais Wally Froiseth, John Kelly e Fran Heat.

Na década de 40, Woody se casa pela segunda vez, com uma hawaina que foi apelidada pelos surfistas de “Ma” Brown. Não sendo apenas surfistas de ondas grandes, mas também exploradores, exploraram principalmente a costa norte (North Shore) de Oahu onde mais tarde ficou o centro mundial do surf.

Em 22 de dezembro de 1943, Woody junto com seu amigo Dickie Cross de 17 anos, foram surfar em Sunset Beach em uma tempestade crescente, “nós não sabíamos que iria transformar num Inferno, eu apenas fui no North Shore 4 ou 5 vezes” admite. Com as ondas passando de 20 pés, os dois são obrigados à remar para águas profundas com o objetivo de não serem pegos pelas ondas, remando 3 km até chegar na baía de Waimea , os dois pensaram que lá estariam seguros. Dickie após tentar sair remando em uma onda, perde sua prancha e fica a nado, logo após Woody também perde a sua. Com sua experiência, Woody propositalmente, foi jogado pelas ondas conseguindo chegar à praia pelado onde um pessoal do exército estava esperando os dois na areia. Soldados relatam que as ondas passavam dos 60 pés e que o garoto (Dickie) tentou pegar jacarézinho para se safar, mas na primeira tentativa ele desaparece e nunca mais foi visto.



Depois desse dia, Woody se muda para Christmas, onde viu uma canoa hawaiana repousada, com o designe desta canoa, ele criou um veleiro de dois cascos, conhecido hoje como Catamarã. Sua descoberta entrou no livro dos records por ser o veleiro (38 pés) mais rápido do mundo, por conseguir grandes velocidades como 20 nós. Isso fez com que seus veleiros entrassem nos negócios pela sua vida inteira.

Na década de 80, Woody se muda para Maui e converte-se para Bíblia, onde escreveu livros como “The Gospel Of Love” e “A Revelation Of The Second Coming”.
Em 1986 sua segunda mulher morre de diabete. Magoado, Woody vai para Filipinas com o objetivo de encontrar a próxima esposa. Se casa pela terceira vez, com uma filipina chamada Macrene, 30 anos. Os dois tiveram dois filhos e se mudaram de novo para Maui, aonde ele veio a falecer em 16 de abril de 2008, aos 96 anos de idade.


“Eu tenho que admitir, eu vivi na melhor época. Eu não poderia ter tido uma vida melhor, quer dizer, eu tive sorte. Eu voei na época mais romântica, onde cada decolagem era uma experiência nova. Com o Surf a mesma coisa, surfei as grandes ondas, ganhei um pequeno respeito... sabe, com as pessoas. Eu sou apenas um sortudo. Eu presenciei o velho povo hawaiano e o jeito que viviam. Eu peguei a ponta final do verdadeiro Hawaii. Estou agradecido e apreciado por tudo isso” se emociona Brown.

Surfou até os seus 91 anos de idade, parou por questão de saúde. Fascinado pela velocidade, Woody foi um grande surfista, velejador e planador do século XX e XXI, sempre querendo aperfeiçoar seu trabalho e que ao mesmo tempo foi a sua paixão. Ele estará no coração de quem sempre o adorou e se inspirou.


Uma das pranchas Hot Curl que Woody usou em sua vida.