Mostrando postagens com marcador Hot Curl. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hot Curl. Mostrar todas as postagens

06/04/2009

Os Hot Curl, por Greg Noll

Um trecho retirado e traduzido do livro Greg Noll – The Art Of The Surfboard, explica uma das primeiras viajens de Greg para o Hawaii, relatando os últimos indícios dos surfistas que ainda adotavam as pranchas Hot Curl. De acordo com as páginas 136 e 137 do livro:


Greg Noll – The Art Of The Surfboard


“Quando eu fiz a minha primeira viajem às Ilhas como um garoto de 16 anos de idade, ainda havia alguns hawaiianos que surfavam com as pranchas Hot Curl – Buffalo, Henry Preece, e Gigi Kaiao junto com seus cinco irmãos.
Vendo eles nestas pranchas era incrivelmente uma coisa graciosa e hábil de se ver. Eles conseguiam total controle... e como eles se mantinham nas pranchas após suas rabetas deslizarem de lado e para fora ainda é um mistério para mim.



Greg em sua primeira viajem para as Ilhas, em 1953. Foto tirada em Makaha.
Notem que o bottom perto do bico era usado nas pranchas antigas de ondas grandes, para que a prancha não sofresse muito nas regularidades das ondas.



Apesar de John Kelly, Fran Heath, Wally Froiseth e George Downing serem credibilitados por produzirem as primeiras pranchas Hot Curl, os hawaiianos adotaram elas quando George e Wally vieram surfar em Makaha. Com a falta de modelos para criar um estilo, eles fizeram o que os hawaiianos fazem de melhor – eles mantiveram a simplicidade.

Meu bom amigo Henry Preece me explicou um dia que eles roubavam as madeiras redwoods por onde eles conseguiam achar, em seguida, tomavam suas azagaias de mergulho (chamados de Hawaiian slings) e dobravam-nas para fazer o contorno do “outline” da prancha.


Pagina 136. Quatro fotos de réplicas dos Hot Curl com a foto acima de Henry graciosamente mandando um beijo para a onda de Haleiwa em 1960.



Com a ajuda de Henry, uns 50 anos mais tarde, consegui algumas madeiras redwoods, usei minha azagaia de mergulho, com toda a certeza, funcionou perfeitamente, fazer um dos mais bonitos, lustroso, e fluido “outline” que eu já tinha visto.

Que grande sensação trazer de volta uma dessas Hot Curl como um tributo para os Hawaiianos de Makaha! Ainda mais marcante, foi esta prancha que eu construí e presenteei o meu bom amigo e um dos melhores surfistas de todo o tempo, Phil Edwards.



Mary e Phil Edwards atualmente,
junto com o presente de Greg.


Se eu fecho os meus olhos e relembro o passado, ainda consigo ver os meus amigos hawaiianos em plena postura de arco, deslizando abaixo a face de uma perfeita onda de Makaha, com a luz do Sol refletida por ela, e um vento terral o suficiente para segurar o lip. Aloha!”

–Greg Noll

31/03/2009

Ciclos Hawaiianos

Olá. Bem vindos à outra publicação do Back to Singlefins.

Retirado e traduzido do blog Legendary Surfers, uma das conversas que mais admiro com Woody Brown sobre seu tempo de big rider na costa sul e oeste de Oahu. Um diálogo que transmite a intensidade de como era ser um dos poucos big riders da década de 30, logo após o renascimento do surf.

A nova era do surf em ondas grandes começou nos anos 30, na costa Sul, Oeste e Norte da ilha de Oahu. Mal faziam três décadas do renascimento do esporte quando Woody chegou às ilhas. Nesta época, o epicentro do surf ainda consistia a praia de Waikiki.


Nativo. Diamond Head ao fundo. Anos 20.

- Mencionado que ambos, Duke Kahanamoku e Tom Blake, haviam dito e escrito que a praia de Waikiki em certas ocasiões chegava a dias excepcionais que era muito raro. Era verdade?

Tom Blake e Duke Kahanamoku.


- Oh, - Woody exclama - claro que sim! Meu Deus, as ondas quebravam em uma só arrebentação antes de alguém conseguir chegar lá. Ocorreu que teve um ano que estava quebrando tão grande, que a costa inteira fechou pelos espumeiros e o horizonte não tinha meio de visualizá-lo. As ondas do Porto de Honolulu estavam quebrando nos incríveis 30 pés. Então, os pioneiros de ondas grandes, que já eram poucos esses loucos, subiram para Black Point onde tem um penhasco de pedra que desce até o mar. As águas do pé deste penhasco eram fundas fazendo com que as ondas não quebrassem ao encontro das pedras. Os pioneiros jogavam as pranchas lá de cima e mergulhavam, e então remaram até chegarem à frente da praia de Waikiki, provavelmente uma milha de distancia da areia. A arrebentação como havia dito era só uma, limitando apenas em uma tentativa. Mas eles não se importavam muito, apenas apertavam as mãos dizendo, “OK, em caso de a gente não se ver mais...”. Faziam isso e dropavam as ondas ou levavam uma tremenda vaca fazendo com que eles nadassem o caminho todo até a praia. Eu conto a vocês, falo sobre coragem.


Makaha. 1953.


- Você estava mencionando Wally Froiseth, John Kelly e Fran Heath?

- Eles eram um dos principais – Woody relembra –, vamos ver, também havia Rus Takaki – um garoto japonês-, e um garoto coreano que esqueci o nome, mas eram os principais que eram capazes de remar essa distancia toda quando o mar estava daquele jeito. Ninguém mais tinha o pensamento de ir se juntar. Eles acharam todos os lugares que quebravam ondas grandes em torno de Oahu, antes de eu ser um dos primeiros a surfar no North Shore por volta de 1940. Parecia que o surf nos anos 30 era maior. O ciclo mundial muda. O surf começa a ficar grande em diferentes partes do mundo por causa deles. Nós não éramos civilizados o suficiente para deixar gravados esses ciclos, talvez de até 100 anos. A gente não sabe.


Os hot curlers
Fran Heath, John Kelly & Wally Froiseth.


- Você não acha que as pessoas se acostumaram com o tamanho?

- Não, oh não, não. As ondas eram maiores. Como havia dito os barcos não conseguiam chegar perto do Porto de Honolulu. Eu nunca mais vi disso nos últimos 50 anos que estou nas Ilhas. Esses dias excepcionais eram em torno de 1930. Quando íamos ao mar de Castles, as ondas eram 25 pés, onde não quebravam ondas menores de 10 pés. Atualmente, quando o meu amigo Wally Froiseth relembra, “Então Woody, não tem mais daqueles dias, hein!”. Não ocorre mais isso por alguma razão maior. Como eu digo, em minha opinião são os ciclos. Tem todo o tipo de ciclos que nós estamos começando a entender...


Wally Froiseth. Makaha, 1953.

09/03/2009

Woody Brown, um ídolo, um anjo

Eu, como poucos, admiro e estudo a vida dos watermen da velha guarda. Através de leituras e biografias traduzidas, vídeos e reportagens raras de suma importância, com o tempo que você vai se aprofundando no assunto, mais exótico e dramático se torna a vida desses homens que fizeram historia apenas saindo da alienação da sociedade Norte Americana. Woody Brown falecido ano passado, aos 96 anos de idade, foi um dos últimos homens que descobri e foi um dos que mais me chamou a atenção, no sentido da humildade e experiência que teve em vários capítulos de sua vida, que foi, resumidamente não satisfatório à mim, assim:



Woodbridge Parker Brown nasceu em 1912 em Nova York, um filho de uma respeitosa família. Em seus anos de adolescência apaixonou-se por aviação largando a escola aos 16 anos de idade. Começou à freqüentar o Aeroporto de Curts em Long Island, Nova York, dormindo em hangares fazendo de tudo para ficar perto de sua paixão. Logo cedo, abandonou os aviões mecânicos quando descobriu os planadores. Durante seus dias de planagem, Woody se casou com uma inglesa independente e esperta chamada Elizabeth Sellon. Dirigindo para La Jolla - California, rebocando seu planador, o casal deixou Nova York em 1935.

Lá, ele conseguiu um rendimento o bastante para sustentar sua dedicação à planagem, com isso, ele foi o primeiro à lançar um planador do penhasco em La Jolla, que mais tarde tornou “Torrey Pines Glider Port”. Além de sua paixão de voar, começou a surfar em La Jolla, onde se tornou o primeiro surfista da praia, com sua prancha oca de madeira de 10 pés (3 metros).

Em 1939, com sua mulher grávida, foi convidado à participar de um grande encontro dos Planadores no Texas. Pegando seu planador Thunder Bird em La Jolla, Woody planou por 263 milhas, passando 3 estados até chegar em Texas. Batendo o recorde nacional e mundial de altitude, de distância, de tempo de vôo nas alturas e objetivo de vôo em um planador. Chegou a receber um telegrama de parabéns do presidente da repúbilca dos EUA, Herbert Hoover.




Ao voltar para casa, sua esposa falece no parto de seu filho, “Eu desabei, não conseguia surfar, não conseguia voar, eu estava morrendo” diz. Largando tudo, Woody foi para Oahu, Hawaii, e por causa da Segunda Guerra Mundial, foi obrigado a ficar na ilha não conseguindo completar seu destino, que era Tahiti. Na ilha, descobriu as ondas grandes e perfeitas que lá quebravam, conhecendo os locais Wally Froiseth, John Kelly e Fran Heat.

Na década de 40, Woody se casa pela segunda vez, com uma hawaina que foi apelidada pelos surfistas de “Ma” Brown. Não sendo apenas surfistas de ondas grandes, mas também exploradores, exploraram principalmente a costa norte (North Shore) de Oahu onde mais tarde ficou o centro mundial do surf.

Em 22 de dezembro de 1943, Woody junto com seu amigo Dickie Cross de 17 anos, foram surfar em Sunset Beach em uma tempestade crescente, “nós não sabíamos que iria transformar num Inferno, eu apenas fui no North Shore 4 ou 5 vezes” admite. Com as ondas passando de 20 pés, os dois são obrigados à remar para águas profundas com o objetivo de não serem pegos pelas ondas, remando 3 km até chegar na baía de Waimea , os dois pensaram que lá estariam seguros. Dickie após tentar sair remando em uma onda, perde sua prancha e fica a nado, logo após Woody também perde a sua. Com sua experiência, Woody propositalmente, foi jogado pelas ondas conseguindo chegar à praia pelado onde um pessoal do exército estava esperando os dois na areia. Soldados relatam que as ondas passavam dos 60 pés e que o garoto (Dickie) tentou pegar jacarézinho para se safar, mas na primeira tentativa ele desaparece e nunca mais foi visto.



Depois desse dia, Woody se muda para Christmas, onde viu uma canoa hawaiana repousada, com o designe desta canoa, ele criou um veleiro de dois cascos, conhecido hoje como Catamarã. Sua descoberta entrou no livro dos records por ser o veleiro (38 pés) mais rápido do mundo, por conseguir grandes velocidades como 20 nós. Isso fez com que seus veleiros entrassem nos negócios pela sua vida inteira.

Na década de 80, Woody se muda para Maui e converte-se para Bíblia, onde escreveu livros como “The Gospel Of Love” e “A Revelation Of The Second Coming”.
Em 1986 sua segunda mulher morre de diabete. Magoado, Woody vai para Filipinas com o objetivo de encontrar a próxima esposa. Se casa pela terceira vez, com uma filipina chamada Macrene, 30 anos. Os dois tiveram dois filhos e se mudaram de novo para Maui, aonde ele veio a falecer em 16 de abril de 2008, aos 96 anos de idade.


“Eu tenho que admitir, eu vivi na melhor época. Eu não poderia ter tido uma vida melhor, quer dizer, eu tive sorte. Eu voei na época mais romântica, onde cada decolagem era uma experiência nova. Com o Surf a mesma coisa, surfei as grandes ondas, ganhei um pequeno respeito... sabe, com as pessoas. Eu sou apenas um sortudo. Eu presenciei o velho povo hawaiano e o jeito que viviam. Eu peguei a ponta final do verdadeiro Hawaii. Estou agradecido e apreciado por tudo isso” se emociona Brown.

Surfou até os seus 91 anos de idade, parou por questão de saúde. Fascinado pela velocidade, Woody foi um grande surfista, velejador e planador do século XX e XXI, sempre querendo aperfeiçoar seu trabalho e que ao mesmo tempo foi a sua paixão. Ele estará no coração de quem sempre o adorou e se inspirou.


Uma das pranchas Hot Curl que Woody usou em sua vida.